Patrimônio Despedaçado de São Paulo

Fevereiro 25 2009

Largo da Misericórdia, fica escondido nos cruzamentos das ruas Quintino Bocaiuva, José Bonifácio e Direita. No número 24, da José Bonifácio encontramos o edifício Triângulo, considerado, mesmo que à revelia, o primeiro prédio modernista paulistano. Projetado por Oscar Niemeyer,  num periodo em que manteve um escritório em São Paulo, dirigido pelo arquiteto Carlos Lemos, nessa empreitada foram construídos, prédios como o Califórnia, o Triângulo, o Copan. Projetos residenciais e comerciais, financiados pelo Banco Nacional Imobiliário (BNI). São obras que o arquiteto se nega a incluir em sua autobiografia, principalmente porque são fruto de um embate desproporcional entre a criação da arquitetura e as normas edilícias. Mas o Triângulo tem outro patrimônio tombado em condição de descaso idêntico ao dedicado ao prédio. Um painel, em pastilhas, na portaria. A obra de Emiliano Di Cavalcanti, se estende da parede exterior ao interior do hall de entrada num mural representando várias atividades profissionais. O estado de sua parte externa  essas fotos exibem com a eloquência que nenhuma palavra teria. 


Fevereiro 25 2009

 A atual rua Florêncio de Abreu já era, na século XVI, um dos principais caminhos da cidade. Naquela época, era utilizada por tropeiros e bandeirantes que se dirigiam ao interior. Situado nos limites da cidade, aquele caminho era também uma  referência que fazia a ligação do núcleo central com o então chamado "Campo da Luz" ou do "Guaré" ou "Guarepé". Por isso, o primeiro nome da rua foi "Caminho do Guaré", mais tarde trocado para  "Caminho da Luz". Entre os anos de 1782 a 1786Francisco da Cunha Menezes, então presidente da provincia, promoveu vários melhoramentos, na rua. Nessa época, ela passava dentro da chácara do Dr. Miguel Carlos Aires, procurador da Coroa entre 1786 e 1788. Por isso, ela ficou conhecida como "Rua Miguel Carlos". Existem referências que mostram, nesta mesma época, o nome "Rua do Marechal", sendo que outros historiadores falam de um trecho denominado "Rua da Figueira de São Bento". No século XIX, a rua recebe o nome oficial de "Rua da Constituição", em homenagem ao juramento da primeira Constituição após a independência, em 25/03/1825. Desta época permanece, com o mesmo nome, a Ladeira da Constituição, descendo da Florêncio em direção à várzea do Tamanduateí, em cuja esquina se encontra a janela acima.

Enfim, a Florêncio de Abreu é uma rua de muitas histórias. Desde aquelas ligadas ao Mosteiro de São Bento até as ligadas às lutas dos primeiros sindicatos operários. Esteve ali, também o primeiro sindicato de gráficos, de formação anarquista.

As lojas de ferramentas, mais de cinqüenta, estão ali há cerca de 100 anos. Algumas delas, como a De Meo e a Casa da Bóia, continuam ocupadas pelas famílias fundadoras.

Em muitas dessas construções suas fachadas mostram mais o tempo que passou que o cuidado com suas condições físicas. O tempo só passou, sem que nenhum restauro ou reforma tenha cuidado desses imóveis. Há uma grande quantidade  de prédios, alguns abandonados outros com restauro prometido há anos e nada...

A Casa da Bóia, no detalhe do frontão ao lado,  no entanto, é uma exceção. Mantém em excelente estado a conservação de sua arquitetura, cheia de detalhes decorativos, desde 1909. Mas muito ainda precisa ser feito por essa rua que representa um marco na história da capital, como demonstra a foto no alto do post, onde vemos a fachada da antiga delegacia da rua, hoje em estado de total abandono, embora prédio público e tombado.

publicado por enniobrauns às 14:38

Fevereiro 24 2009

Chamam assim, mas na verdade está localizado na esquina da praça Clóvis Bevilaqua com a rua Roberto Simonsen, defronte à igreja da Ordem 3ª do Carmo.  O "casario" é seguramente um dos conjuntos de moradias mais antigos desta área da cidade. Acabou situado na borda praça da Sé, quando da reforma, nos anos 70 que derrubou outras casas e juntou as duas praças. Há, com certeza mais de uma década encontra-se lacrado, coberto com uma rede de proteção que apodrece.
Como se fosse até "entrar em restauro".
Embora tenha resistido às fortes chuvas nos últimos anos, ao olhar pra ele, diariamente, penso se o poder público municipal espera, com fé, que uma chuva providencial dê cabo à esperança de vê-lo recuperado e revitalizado.

publicado por enniobrauns às 00:50

Fevereiro 18 2009

O Edificio Rolin, localizado na praça da Sé, 80  é um projeto do arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol Jr. Prédio misto, projetado em 1920, gozava de um privilegiadíssimo ponto de vista da Cidade. Às sacadas de sua marcante torre, os quatro cantos de São Paulo se descortinaram. Na época de sua construção esta era uma das mais caras regiões  da cidade. Sua  torre que encima uma cúpula de ladrilhos verdes, reforça a verticalidade da obra que faz referência a Escola de Chicago e à arquitetura francesa. Ainda hoje é visível dos mais diversos pontos do centro histórico. Seja quando se chega à praça pela rua Direita ou subindo rua Boa Vista em direção a rua Regente Feijó. Do parque D.Pedro II ao Patio do Colégio as formas únicas do Rolin destacam-se na paisagem e na atmosfera.

publicado por enniobrauns às 03:22

Fevereiro 18 2009

A região do centro que vai da praça da em direção a várzea do Tamanduatei, tem alguns exemplos de patrimônio histórico carencendo de serem restaurados e conservados. Públicos e privados. Um deles, tombado, em processo de restauro-manutenção que finalmente saiu do papel, é a igreja de Nsª Srª da Boa Morte. Está situada próximo à esquina das ruas do Carmo e Tabatinguera. Um dos exemplares religiosos mais antigos da cidade, com a vista privilegiada que tinha de toda a várzea, foram seus sinos que tocaram anunciando o "grito da independencia", em 1822, depois repicados pela Sé.
Depois de alguns anos coberta por tapumes que envelheciam, teve recomeçado, há menos de 1 ano, seu restauro que envolve obras estruturais e restauro na fachada. Nas fotos aos lados uma vista da rua Tabatinguera há três anos e a torre com com o sino restaurada e pintada. O anexo à capela, no entanto continua como estava e não parece estar incluido no projeto de recuperação. Fato idêntico ao constatado no Largo de São Francisco com a igreja e o convento.

publicado por enniobrauns às 02:30

Fevereiro 12 2009

Nesta esquina estão o primeiro e o segundo prédios da praça. Este à direita é o primeiro. O segundo é o Palacete São Paulo, do outro lado da esquina onde atualmente funciona a editora da UNESP. O Edificio Augusto Gazeau, apesar de constar que estava em processo de tombamento, em 2004,   até meados de 2006 ainda não havia sido concluido, em nenhuma de suas esferas. Fato que entusiasmou os proprietários do "Estado de S. Paulo" a pensar em comprá-lo para instalar ali o Centro Cultural Julio Mesquita, responsável pela curadoria dos arquivos do jornal.
Falta, no prédio,  o torreão que encimava a esquina, retirado na reforma de 1962 que também acrescentou um 6º andar, recuado da fachada, aos únicos cinco que a prefeitura permitiu na época de sua construção. As obras começaram no início da década de 1910, mas sua conclusão só foi possível, no entanto, 14 anos depois, em 1924. No projeto original do engenheiro italiano Emilio Monaco, contava com mais quatro andares (embargados pela prefeitura quando a obra estava na quinta laje) e o torreão sobre o ângulo.
O prédio é também o segundo a usar estrutura de concreto armado, na cidade e o primeiro na praça da Sé. Seu proprietário, o empresário livreiro Augusto Francisco Gazeau, ao longo da sua vida, reuniu uma pequena fortuna que tranformou em prédios de uso comercial, espalhados pela cidade, para garantirem a renda dos três filhos. Este prédio, cujo andar térreo abrigou a Livraria Gazeau, serviria também para garantir a renda da filha mais nova. As duas  fotos de baixo são do Palacete São Paulo, com o detalhe do furo na cúpula.

 

publicado por enniobrauns às 04:42

Fevereiro 12 2009

O Triângulo é, como é chamado, o trecho do centro compreendido entre esta rua, a São Bento e a XV de Novembro. Esse era o núcleo "efervecente" da cidade do planalto de Piratininga, entre a segunda metade do século XIX e início do XX. O Centro era balizado pelos Conventos de São Francisco, de São Bento e da Ordem 3ª do Carmo. As ruas não iam além dos vales dos rios Tamanduateí e Anhangabaú. Tudo era tão perto que a primeira linha de bonde, com tração animal, só seria inaugurada em 1872. Portanto é das mais antigas de São Paulo, mas não tem mais tantas construções que demonstrem essa idade toda. Uma delas é essa na foto à esquerda. Um sobradinho de dois andares que já teve janelas e portas do 1º andar alteradas, assim como a pintura. Este à direita está na esquina com a Quintino Bocaiuva, é muito mais rebuscado no seu desenho da fachada. É mais antigo também.
A São Paulo da época dessas construções vivia um crescimento vertiginoso como nunca se havia visto em mais de 3 séculos. Para se ter uma idéia, em 1895 a população da cidade de São Paulo era de 130 mil habitantes, sendo que desses, mais de 70 mil eram estrangeiros. Cinco anos depois a população já era de 239.820 indivíduos.

publicado por enniobrauns às 02:01

Fevereiro 09 2009

Essa Igreja, pintadinha de nova, ao lado da Ordem, entregue às intempéries, é de o Francisco de Assis. Marcadas por um estilo simples, singelo até, foram erguidas em meados do séc. XVII, é hoje uma das poucas construções em estilo autenticamente colonial.

Pesquisando no site Sampart, encontrei a seguinte informação, cujos grifos são de miha responsabilidade: 

O Largo São Francisco é um caso típico de espaço definido pela apropriação do adro, que valoriza a presença de edifícios religiosos e acadêmicos.
Foi em meados do séc. XVII que iniciou-se a construção de um convento em taipa, por ordem da Ordem Franciscana, situado no extremo sul da Vila de Piratininga,
próximo às encostas do ribeirão Anhangabaú.
Em 1776, os frades franciscanos, incorporados ao convívio comunitário, criaram uma escola agregada ao convento. O ensino da teologia, da moral, da retórica e do latim, provocaram a vinda de um grande número de estudantes. Em 1827, decreto do governo imperial, instituiu a Faculdade de Direito, que deveria ser instalada no Convento São Francisco.   

Este prédio não existe mais. Foi substitudo pelo atual da Faculdade de Direito da USP.
Ao lado do desleixado patrimônio da Ordem de S. Francisco existe, ainda um belíssimo prédio residencial, abundantemente adornado com capitéis e volutas.


publicado por enniobrauns às 14:25

Fevereiro 09 2009

Esta é uma das áreas  da cidade urbanizadas a mais tempo. Era pelo largo do Piques (atual da Memória)  que tropeiros e viajantes em geral, passavam partindo e chegando do sul rumo as regiões de Campinas e Sorocaba. Consta de mapas e plantas da cidade, pelo menos, desde o começo desde as primeiras décadas do século XVIII. Mas é no séc. XIX que ali se estabelecem diversa pousadas para atender viajantes e muares, no limite do contato com a vida urbana. Neste mapa abaixo, de meados do séc. XIX, (o largo é marcado pelo círculo vermelho) vemos uma realidade muito diversa da agitação urbana que hoje atravessa-o vindo da rua Quirino de Andrade (a antiga Ladeira do Piques) ou da rua da Consolação, em direção ao vale do ribeirão do Anhangabaú. Junto à ladeira corria o ribeirão do Saracura, que junto com o ribeirão do Bixiga alimentavam o Anhangabaú.
O Obelisco da Memória, inalgurado em 12 de outubro de 1814, é o monumento mais antigo da cidade.e é o único elemento original no conjunto atual, mas está reposicionado. Da antiga fonte que matava a sede de gentes e bichos, não sobrou nada. Em seu lugar simbólico, o conjunto escultórico do arquiteto Victor Dubugras, inaugurado em 1922, mas atualmente desligado e seco. Na última "adaptação" sofrida pelo largo a escadaria que levava ao obelisco e ao chafaris foram substituidos por rampas. A falta de uma atividade permanente no uso da praça colabora para o aumento do número de pixações na estrutura deste que é o conjunto histórico mais antigo do centro da cidade.

publicado por enniobrauns às 03:34

Fevereiro 09 2009

Esta rua vai da praça João Mendes até a avenida Liberdade. Começa ao lado da igreja de S. Gonçalo, atualmente em ótimo estado de conservação. Ao seu lado, no entanto, no  nº 85, encontra-se o Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento, instituição fundada em 27 de julho de 1909, pelo português Antônio Olívio Rodrigues, então com 30 anos e que havia chegado ao Brasil em 1890. Tinha instrução primaria, mas se interessava pela leitura, principalmente, de textos espiritistas e ocultistas. Privilegiou aqueles de Helena Petrovna Blavatsky, aristocrata russa que imigrou para os Estados Unidos em 1873 e fundou da Sociedade Teosófica. O Círculo é uma espécie de entidade maçônica. 
Este prédio foi construído em 1925 com um "estilo" que reune em sua fachada uma série de elementos esotéricos. Esteve abandono por vários anos   e, agora que partes da fachada ameaçam desabar, foi coberto com tela de proteção e aguarda o começo das urgentes obras de consolidação e restauro
Na outra ponta do quarteirão, esquina com a rua Alvares Machado, praticamente ao lado do Círculo, encontramos um sobrado, com vários comércios no térreo. Sobrado típico do início do séc. XX com habitação no andar superior e lojas na rua. Vale anotar que as ruas em torno abrigam, históricamente, vasto comércio de livros usados, os "sebos" . No térreo deste ainda encontramos um deles. 
No quarteirão que vai da Alvares Machado à avenida Liberdade encontra-se uma série de pequenos sobrados, nos mais diversos estados de conservação. Alguns mantém, de sua forma original, apenas o frontão e o ano da construção, com desfigurações em janelas e portas externas. São todos de origem residencial, mas seu uso varia atualmente entre habitações coletivas e pequenos escritórios comerciais.

publicado por enniobrauns às 00:54

Patrimônio Despedaçado é um projeto documental e historiográfico do que resta do patrimônio mal conservado, de São Paulo. Concebido, pesquisado e fotografado por Ennio Brauns.
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